Terça-feira, Dezembro 27, 2005

A saudade

A saudade dói no peito mesmo. A saudade é física. É um aperto no peito, como se estivessem fazendo migalhas do meu coração. Eu estou assim desde o dia 24 à noite. Não fomos ao Brasil este fim de ano e eu estou com tanta saudade do Rio, do Brasil. País é que nem gente, tem personalidade. Claro que uns mais marcantes que outros. E o Brasil é assim. Não sei explicar muito bem porque o amo. Tem gente que tenta o já cotidiano "praia, carnaval e futebol", mas não caio nessa, até porque não é por isso que eu amo o Brasil. Seria simplório demais e eu sempre amo complicado.

Eu o amo porque: eu nasci no Brasil; dos lugares que eu já estive, é o país que eu mais gosto, onde a palavra "casa" faz todo o sentido para mim; os vizinhos pedem açúcar ou uma cebola emprestada; tem sempre música para tudo, para contar uma história; tudo é motivo para tomar uma cerveja, um mate gelado ou uma água de coco; as pessoas falam "eu te amo" na maior facilidade, para amigos, família...; ir até a esquina comer uma esfiha com um caldo de cana é o máximo; tem açaí com granola; o pagode na porta do bar me irritava, mas agora eu acho que é uma manifestação cultural que deve ser respeitada, até às 22 horas, claro, porque eu não sou de ferro; todo mundo dança, qualquer dança; todo mundo come feijão; porque o churrasco tem carne de verdade; eu tenho saudade da conversa na fila nos bancos, no supermercado, que eu tanto reclamava; porque eu sinto falta de pessoas que me ligam depois das 22h e acham isso normal; porque andar de Havaianas é normal; porque estar com muita raiva e olhar pela janela do carro e ver o mar e o céu azul me trazia muita paz; porque estar no carro e ver às 10 horas da manhã todos os velhinhos de Copacabana caminhando e jogando xadrez mostra que há vida depois dos 80; porque eu tenho outros tantos motivos para odiar o Brasil, mas mesmo assim, eu o amo; porque eu sou brasileira, nascida e criada no Rio de Janeiro, e estou com uma saudade enorme do meu país e da minha cidade; porque a gente tem que cuidar da nossa casa, do país que sempre estará de portas abertas para nos receber...Que saudade...

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

A falta de respeito

Às vezes, quando a gente encontra muita gente sem educação, fica difícil acordar e dizer "bom dia, dia!", sabe? Fica difícil ver a vida com óculos cor-de-rosa...Ultimamente, tenho estado cri-cri, reclamona, com a testa franzida, estressada, preocupada e com vontade de mandar muita gente à ponte que partiu. Estou no meu limite. Cansada de as pessoas não terem respeito pelo trabalho alheio, cansada da falta de uso de palavras básicas que deveriam ser as primeiras que os pais deveriam ensinar aos seus filhos: "Por favor - Obrigada - Desculpas - Bom dia - Boa tarde - Boa noite - Com licença"

Cansada. Muito cansada. Voltei de férias há menos de um mês e acho que já estou precisando de outras. Tenho quase 30 anos e se eu continuar estressada e nervosa dessa maneira, não sei onde eu vou parar.

Tenho um projeto muito legal para realizar com as mulheres que estão na terceira idade: dança nos parques ou nas salas vazias da sub-prefeitura da Cafelândia*. Custo quase zero se falamos em dinheiro porque minha idéia é que as senhoras paguem o que elas podem no fim de cada aula. Se podem dar um real, que seja um real. Mas é necessário gente que tenha vontade de fazer coisas, de inovar. Coisa rara no mercado.

Fui à uma das sub-prefeituras de umas das municipalidades daqui para apresentar o projeto. Estou esperando na salinha para o início da minha reunião com o sub-prefeito e entra uma mulher bem vestida, tailleur preto, cabelo escovado, batom Lancôme, perfume francês de mais de US$ 100. Não sei quem é, mas deve ser importante porque todo mundo a cumprimenta com um tom "ela é chefe". A elegância é quebrada quando, falando pelo telefone, a senhora grita um "caralh*o" usado como interjeição.

Abre parênteses. Eu falo palavrão. Vários. E muito. Não sou puritana, mas acho que há lugares em que o tom de voz baixo e o emprego de palavras adequadas são essenciais. Fecha parênteses.

Enfim, na reunião, apresento o projeto, o sub-prefeito aparece e fica rapidinho, e me deixa com a senhora do caralh*o, que a partir de agora chamada de senhora C. Ela é responsável por cultura e esportes na região e aparentemente parece gostar do projeto. Mas vai logo avisando que não tem orçamento, não há dinheiro e o escambáu. Eu explico que o projeto para mim é como se fosse um hobby, eu não quero ganhar dinheiro com isso. E ela explica que o próximo ano é de campanha e que todo o dinheiro vai ser usado em obras, porque é o último ano do sub-prefeito.

Voltei na sexta-feira a pedido dela, porque queria que eu apresentasse como seria uma aula minha. Como combinado, eu iria apresentar uma aula e levaria 5 mulheres entre os 8 e os 50 anos que dançam juntas, para que ela tenha idéia de que quando se fala em dança não significa "move a bundinha para cá e para lá", que a dança tem um papel importantíssimo na auto-estima etc e que pode ser praticada por qualquer mulher. É a dança pela dança.

Antes de começar eu falo:

_Como combinamos, farei uma aula de 30 minutos e depois, na última meia hora, as meninas apresentam algumas danças para que vocês vejam o resultado.

A senhora C. começa a ver a aula que eu dou e já começa:
_Eu só tenho 15 minutos.
_Ok. Então 15 minutos.

Termino a "amostra de aula" em 5 minutos. E aproveito os outros 10 para que a senhora C. veja o que a dança fez pelas mulheres, com corpos tão distintos, gente gordinha, gente magrinha, alta, baixa, na menopausa, ainda na infância, enfim, uma dança tão democrática etc.

E ela:
_Mas todas vão dançar?
_Sim, todas, um pouquinho, para que vocês vejam como é, para que conheçam. - eu respondo.

Enquanto cada uma dançava, as 5 pessoas presentes não pararam de conversar. Não prestaram a atenção, também não se aproximaram a cumprimentar nem a mim nem às meninas. Terminou a apresentação, que era num auditório bem simpático, se levantaram e a senhora C. disse:

_A gente te liga qualquer coisa.

E foram embora. Sem dizer nada. Só: a gente te liga qualquer coisa. Nem a menininha de 8 anos dançando com o bastão com uma habilidade e graça incríveis foi capaz de fazê-los parar de conversar. Incrível. Fiquei com a cara no chão pela maneira como trataram minhas alunas que tinham mil coisas para fazer naquele horário, mas que aceitaram ir até a sub-prefeitura para se apresentar.

Enfim, estou estressada.