Eu estava falando com minha mãe pelo messenger quando minha perna começou a balançar involuntariamente. Eu pensei que eram os "nervos" porque eu ando muito alterada. Comecei a escrever: "tremor", "tremor", "tremor", "tremor" e apertar aquele bonequinho amarelo que tem no MSN. Aquele que faz aquele barulhão. Foi meu primeiro tremor conectada com minha mãe. Claro, ela, sem ser chacoalhada, e eu, sendo sacudida. E olha só que interessante: não fiquei assustada, como das outras vezes. O computador começou a balançar, a cadeira também, os CDs dançavam e eu não levantei correndo, gritando toda a lista de santos católicos que eu conheço nem pensando que era poltergeist. Também não pedi perdão pelos meus pecados. Nem fiquei achando que o prédio ia cair e eu ia ficar soterrada. Nem saí correndo atrás de telefone celular para ajudar a me localizar caso o edifício desabasse. Fiquei imóvel, esperando para ver se o tremor se convertia em terremoto. Como foi só um tremor, fiquei sentada, no lugar em que estava, lendo o que minha mãe escrevia: "vá se proteger, vá se proteger". De duas uma: ou eu estou ficando acostumada, entendendo a "lógica" dos tremores ou eu estou mais preguiçosa do que eu imaginava, que nem levantar da cadeira para salvar minha vida eu faço. Prefiro pensar na primeira hipótese.
Marido liga imediatamente:
_Tremor!! Eu estou no carro. Escutei na rádio que havia tremor. Tá tudo bem??
Um minuto depois do tremor, me liga uma amiga brasileira, quase aos prantos:
_Você sentiu? Meu Deus, que susto - e começou a chorar.
Eu dei uma de forte:
_Não fique assim, já passou. A cidade está acostumada e construída à prova de tremores. E além do mais, teu marido tá aí contigo e pode te ajudar com as tuas filhas. Eu estou sozinha. Marido tá trabalhando.
Dez minutos depois, me liga uma amiga peruana:
_ Tá tudo bem aí? Tá viva? Tá assustada? Tá sozinha? Quer vir para cá? Minha filha saiu de toalha para o meio da rua.
Quando tem tremor de terra por aqui é sempre assim. Há uma cadeia de telefonemas para saber se a família está bem, se os amigos precisam de algo, e as linhas congestionam. O bom é que desta vez, aqui em Lima, as linhas telefônicas não caíram. Quando há terremotos, não há conexão telefônica e o desespero aumenta, claro.
Mas sabe o que eu acho mais assustador que ver tudo balançando? É o barulho que faz um tremor. É assustador.
Terça-feira, Setembro 27, 2005
Terremoto
Quinta-feira, Setembro 22, 2005
As árvores, meu calendário
Aqui na entrada da garagem do meu edifício há duas árvores. Uma delas só dá flores em outubro. As flores são roxinhas, lindas. Eu fico muito feliz ao vê-la com os primeiros pontinhos roxos, porque sei que o inverno está terminando e de repente esta quase-depressão sazonal minha também. A outra árvore fica pertinho de onde estaciono meu carro e está toda pelada. Eu gosto quando aparecem os primeiros pontinhos verdes das folhas, sinal também de que o sol voltou nesta terra e que eu não vou precisar sair de casa com o pescoço cheio de treco para me proteger do frio.
Essas duas árvores são como um calendário na minha vida. Elas marcam o tempo para mim. Sei que quando as flores roxinhas começam a cair, é início do verão. Elas só voltam a crescer na primavera, mas as folhas verdinhas ficam por lá mesmo. Já a árvore pelada eu sinto que é como eu. Ela sente falta do sol, e por isso fica triste, sem folhas, e imóvel ao mais poderoso vento. Já no verão, ela é toda linda, balança a folhagem se um ventinho mixuruca sopra. Ela está viva e ela volta a saber disso por causa do sol.
Terça-feira, Setembro 20, 2005
Mais sobre o Peru
Na sexta-feira, minha ajudante me ligou cedo dizendo que não poderia vir porque uma prima dela, que tinha começado a trabalhar numa casa de família, tinha voltado para casa num estado deplorável. Não falava coisa com coisa e só pedia que a ajudassem.
_Ela está arrancando os cabelos, chora muito e se nega a falar. Nós vamos levá-la no médico.
_Tudo bem. Vem amanhã então.
Ela desligou e eu falei para o marido:
_Tenho certeza que esta menina foi estuprada na casa onde trabalha.
Dia seguinte, eu fiz minha versão, usando o que me contaram.
Ela foi trabalhar. Reclamou de dor de cabeça. Deram vários comprimidos. O filho da patroa é viciado em drogas, e ela já tinha contado que ele a perseguia e que tinha medo dele. Parece que a estuprou, só que ela estava inconsciente por causa dos vários comprimidos. Ela voltou para casa. Os primos levaram a menina, de apenas 19 anos, ao hospital. QUATRO dias depois de ela estar chorando sem parar. Fizeram alguns exames. O médico disse que ela deveria ficar em observação, para fazer mais exames, só que a família da minha empregada disse que foi a um bruxo e o bruxo disse que o ex-namorado da menina estava fazendo macumba para que ela voltasse para ele e por isso estava que nem louca. E... tiraram a menina do hospital, em estado crítico, sem falar coisa com coisa, só chorando, chorando e pedindo ajuda. E por quê? Porque a família diz que o problema dela é macumba ou que está possuída pelo demônio.
Eu dei um telefone à minha empregada para que ela ligasse para um ONG bem legal que tem aqui, que apóia às trabalhadoras domésticas, para que ajudassem a desvender o mistério, pelo menos para ver se esta menina foi estuprada ou para ver se a estavam viciando em drogas.
A menina estava só há dois meses em Lima. E eu insisto: esta menina foi estuprada. Quando a família da menina telefonou para a antiga patroa, perguntando sobre o filho, ela disse que ele tinha viajado para a Espanha. Estranho, né? O problema todo? A menina se nega a falar e só pede ajuda e chora muito. O único que diz é que a patroa deu várias comprimidos para ela. E a família se nega a apurar para ver se ela foi violada.
Na época que eu estava fazendo o mestrado, li várias coisas sobre a vida das cholitas, as moças andinas que vêm para Lima em busca de um futuro melhor e tudo que acontece com elas. Li um livro sobre a biografia de Irene Jara, chamado ?Soy Señora?. É a história desta moça, que veio a Lima a trabalhar, e conta tudo o que sofreu, quando foi origada a trabalhar como escrava porque a patroa lhe dizia que lhe dava comida e teto, logo, ela tinha obrigação de trabalhar. Ela fala do estupro às trabalhadoras domésticas, que diz ela ser comum. É um livro comovente e ideal para quem quer entender um pouco mais o sofrimento feminino dessas mulheres andinas que deixam a solidão das montanhas para enfrentar uma vida em Lima, onde são tão pouco consideradas.