Na Semana Santa, nós fomos para Arequipa, uma cidade que fica no sul do Peru, a dois mil e trezentos metros acima do nível do mar. A cidade está rodeada por desertos e o vulcão Misti, que no inverno fica coberto de neve, é como um símbolo para a cidade. Os terremotos são frequentes e o último forte, em 2001, se não me falha a memória, fez com que a torre da Catedral caísse. Eu lembro que foi logo assim que eu cheguei a Lima. Centenas de pessoas passavam a noite em claro, nas ruas, com medo de novos tremores. Uma amiga do marido morava em Arequipa na época, ela estava grávida e morava no terceiro andar. Todas as vezes que tinha tremor ela ficava nervosa e descia as escadas correndo com um barrigão.
Arequipa foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO e além da beleza arquitetônica, a comida também não fica para trás. Eu gostei tanto da cidade que estava decidida a me mudar com mala e cuia para lá.
A história de Arequipa é antiga. Oito mil anos A.C. Em alguns lugares, é possível encontrar arte rupestre. Conta a lenda que Arequipa foi fundada pelo Quarto Inca, Mayta Capac. Ele estava acampando com seu exército no vale e quando decidiu partir, uma parte de seus soldados pediu para ficar e o Inca respondeu:"ary quepay!", que quer dizer, "sim, fiquem".
Um dos grande atrativos de Arequipa é o Monastério de Santa Catalina, que é semelhante a uma cidadezinha, funcionou como convento durante 400 anos e foi construído no século XVI. Tem mais de 20.000 m2! Durante a visita, a guia nos explicou que era costume na época uma das mulheres da família ser religiosa. Geralmente elas eram de famílias ricas e deveriam seguir a carreira mesmo que não tivessem vocação. Elas eram proibidas de manter qualquer contato com o exterior, eram monjas de clausura, e por isso, havia empregadas que lavavam suas roupas e iam fazer compras na cidade. Meninas a partir de cinco anos também eram educacadas no convento para que as freiras ensinassem a elas como ser uma boa esposa, dona-de-casa e mãe. Aos onze, doze anos, estas meninas saíam tendo já um marido.
Sexta-feira, Abril 29, 2005
Arequipa
Domingo, Abril 24, 2005
Frida Khalo
Há algumas mulheres que eu realmente gostaria de ter conhecido. Uma delas é Frida Kahlo. Li sobre a vida dela, vi o filme, acompanho o que posso. Jamais vi uma obra sua ao vivo e a cores, só pela internet ou pela TV. Mas tudo me parece tão sentimental, tão longe do padrão, tão fora de paradigma. Anteontem aluguei novamente o filme sobre sua vida e claro que chorei e lutei com ela todas as vezes. Sua luta e a convivência com um corpo que não lhe era fiel eram realmente comoventes. Em seu diário, as últimas palavras sempre me fazem ficar meio sentimentalóide: "Espero que la partida sea feliz y espero nunca regresar". Às vezes me pergunto se ela realmente foi feliz. Ela dizia que estava acostumada com a dor. Amou um homem definitivamente difícil, mas que parecia amá-la e amava ainda mais seu lado imperfeito. Do seu jeito, claro, mas quem foi que disse que amar é seguir regras? Acredito que há vários formas de amor e de amar. Talvez eu não suportasse estar com um homem que dormisse com todos as modelos de seus quadros. Talvez não suportasse tanta dor na alma, como ela suportou. Terça-feira, Abril 19, 2005
O Papa
Quarta-feira, Abril 13, 2005
Ansiedade
Meu olho direito está piscando sozinho há uma semana. Ele fica tremendo, tremendo e eu não posso me concentrar com um olho tremendo no meu rosto.
Ontem saí do lugar que mudou o meu modo de ver as coisas e as pessoas, muito decepcionada comigo. Aí, como a comida é minha querida amiga, passei direto no Mc Donald´s para comprar um Mc Pollo, batatas fritas e Sprite. Os três juntos não encheram nem metade do meu estômago, aí saí novamente para comprar um pacote grande de Doritos. À noite, minha fome ainda não tinha sido saciada. Fui ao Wong, um supermercado tradicional daqui que vende um monte de comida chinesa e comprei 10 salgadinhos chineses: wantan, rolinho primavera, triângulo primavera, Jakao, Syu Kao etc. Levei para casa, deitei na cama e comi com pauzinho e muito molho de soja e de tamarindo. Ah! E bebi suco de tangerina. Uma garrafa de um litro. E o resultado? Atroz. Uma dor de barriga incontrolável hoje de manhã fora de casa, daquelas de suar frio e a pele ficar toda arrepiada. Tive que interromper uma aula para ir ao banheiro. Duas vezes.
Domingo, Abril 03, 2005
García Lorca
el fatal sentimiento de haber nacido tarde,
o la ilusión inquieta de un mañana imposible
con la inquietud cercana del color de la carne.
E García Lorca poderia traduzir melhor o que eu estou sentindo agora? Impossível.
Sexta-feira, Abril 01, 2005
Emprestada na vida
1)O verde que eu vejo é o verde que você vê?
2)O que você fala será o mesmo que eu escuto?
3)O gosto que eu sinto será o mesmo que você sente?
4)Será que tudo isso não é um sonho?
5)Será que eu não sou um filme da minha vida?
Tenho dormido quatro horas por dia. Acordo sempre aos pulos. Estou sempre com a impressão de que nao vai dar tempo de fazer nada. Estou com duas olheiras marcadas no meu rosto que dificilmente vao sair. Estou sentindo um bolo no meio da garganta. Tenho ido dar aulas às seis da manhã. Nem sei se sou capaz de dar bem essa aula. Hoje confundi fígado com rins. Ou seja, pior, impossível. Nao consigo me concentrar na hora de ler um livro. Tentei ler um livro para gente culta, um do Kenzaburo Ue, ganhador do prêmio Nobel. Achei o começo chato. Muitos detalhes na hora de descrever o ambiente. Não deixa nada para o leitor. Odeio isso. Li duas páginas e desisti. Nem dei chance para o prêmio Nobel. Aluguei um filme chamado "Pretty Dirty Thing". Ótimo. Genial. Fala sobre a vida de imigrantes em Londres e todas as mazelas que eles têm que sofrer. E eu ainda alugo um filme assim para ver no estado em que eu estou. Burra mais um vez. Estou sem sentido de humor. Só tenho visto o mundo de uma maneira pessimista, quantas divisões, meu Deus! Quantos olhares de tristeza espalhados! Nao tenho querido falar muito com as pessoas. Algumas me escrevem e eu demoro anos para responder. Viajamos na Semana Santa para ver se melhorava e eu acabei voltando pior, eu acho. Não que esteja tudo horrível, não. O problema é que eu acho que eu estou emprestada nesta vida. Sei lá. Tenho crises assim, às vezes. Daqui a pouco passa.